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Mais de um milhão de pacientes tem glaucoma no país. Em Goiás, a estimativa é de que 120 mil contraíram a doença, que é silenciosa e pode levar à perda irreversível da visão. Diagnóstico é simples e tratamento pode interromper avanço da enfermidade. Visitar oftalmologista com regularidade é a maneira mais fácil de combater a moléstia, alerta médico.

Professor Luis Sérgio Mattos, 43, filho de portadora de glaucoma, foi diagnosticado com ceratocone aos 18: acompanhamento médico regular para evitar problemas

Mais de um milhão de pessoas no Brasil são portadoras de glaucoma. Em Goiás, a estimativa é de que cerca de 120 mil pessoas tenham a doença. Mas o que chama a atenção, segundo dados de pesquisa divulgada pela Sociedade Brasileira de Glaucoma é que 1/3 da população com mais de 16 anos nunca foi ao consultório oftalmológico. E o glaucoma pode ser diagnosticado de maneira simples e evitar a cegueira. Visitar o especialista regularmente pode evitar ou amenizar riscos de outros problemas visuais.

O glaucoma atinge hoje cerca de 2% dos brasileiros que possuem idade acima dos 40 anos, o que corresponde a cerca de um milhão de pessoas. No mundo, esse total passa para 60 milhões de pessoas. Mas essa média triplica na população acima dos 70 anos. De acordo com a Or­ganização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano são registrados 2,4 milhões de novos casos no mundo. O mais preocupante é que a maioria dos indivíduos não apresentam sintomas e nem sabe que tem a doença, que é a principal causa de cegueira irreversível.

O médico oftalmologista goiano e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma, Francisco Eduardo Lima, explica que o glaucoma é uma doença ocular causada pelo aumento da pressão intraocular e progride com o passar do tempo. Esse fator causa lesão no nervo óptico, que pode evoluir para a cegueira permanente. A hereditariedade também deve ser observada.  O médico alerta que essa doença não costuma ser silenciosa e só apresentar sintomas quando já está em estágio avançado, fase em que passa a apresentar perda do campo visual. Em 80% dos casos, se não tratada, a doença evolui para perda total da visão de forma gradativa.

O problema pode ser congênito, quando presente desde o nascimento; secundário, sendo desenvolvido após uma cirurgia ocular, catarata avançada, diabetes, traumas ou uso de corticóides; ou crônico, que é o mais comum e costuma atingir pessoas a partir dos 40 anos. Mas alguns pacientes ainda precisam de atenção especial. Em alguns casos, existe predisposição para a doença. Negros e afrodescendentes, por exemplo, estão na zona de alerta, pois a incidência da doença é quatro vezes maior do que em relação aos demais. Mas o oftalmologista Francisco Lima alerta que, no Brasil, com a miscigenação de raças, todos devem manter o alerta.
Francisco Lima afirma que usar óculos vendidos em camelôs, sem receita, não prejudica a visão. Eles apenas impedem que pessoas com possíveis problemas graves possam identificar a doença em consultas. “Esses óculos não prejudicam ou pioram o problema. Só que quem usa óculos sem ir ao especialista perde a oportunidade de identificar muito mais que uma vista cansada. Doenças graves e silenciosas podem ser tratadas com métodos variados”.

Cuidados

Visitar o oftalmologista regularmente é a orientação do especialista. Oftalmolo­gis­ta e ex-presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, Paulo Augusto de Arruda Mel­lo diz que pacientes míopes que utilizam lentes acima de seis graus, ou diabéticos que já tiveram doenças intraoculares ou trauma ocular também fazem parte do grupo de risco.

Uma das causas da doença pode ser a obstrução do escoamento de um líquido que existe dentro do olho chamado humor aquoso. “No glaucoma crônico, os sintomas costumam aparecer em fase avançada, isto é, o paciente não sente a perda da visão até vivenciar uma ‘visão tubular’, que ocorre quando há grande perda do campo visual. Se a doença não for tratada, pode levar à cegueira”, afirma.

Por ser quase sempre assintomático, ou seja, o paciente não possui nenhum tipo de incômodo e apenas descobre o problema quando ele já está em um estágio avançado, o médico alerta para a importância da realização de um exame oftalmológico preventivo. “Isso é fundamental para a detecção e o tratamento precoce, já que 80% dos pacientes acometidos com a doença não apresentam nenhum tipo de sintoma. Em geral, o tratamento é realizado por meio de colírios, porém, caso não apresente resultados satisfatórios, a cirurgia torna-se uma opção”, destaca o oftalmologista.

Ele enfatiza o risco de muitas pessoas possuírem a doença e nem sequer estarem a par, pois, se tivessem ciência, muitos casos de cegueira irreversível poderiam ser evitados. “Para isso é fundamental a divulgação das campanhas de prevenção e esclarecimento à população que realizamos”, finaliza.

Prevenção

“A melhor maneira de proteger a visão contra o glaucoma é fazer uma consulta oftalmológica. Se for identificada essa ou outra doença, o tratamento pode começar imediatamente.” Francisco Lima destaca que uma consulta anual é suficiente para acompanhar a saúde ocular e manter a prevenção do glaucoma e de outras doenças. O exame para identificar o problema é simples e indolor. Mas é importante destacar que a pressão ocular elevada, sozinha, não causa glaucoma. No entanto, é um fator de risco significativo. Indivíduos com diagnóstico de pressão alta do olho devem fazer exames de vista global por um oftalmologista para verificar se há sinais do início do glaucoma.

Mas não existe um nível específico de pressão ocular elevada que definitivamente cause o glaucoma. E também não há um nível menor de pressão intraocular que possa eliminar por completo o risco de uma pessoa de desenvolver o glaucoma. É por isso que o diagnóstico precoce e tratamento do glaucoma são as chaves para prevenir a perda de visão. Na maioria dos casos, a doença progride lentamente, sem que o paciente note a perda gradual da visão periférica. Normalmente, a visão vai piorando das laterais para o centro do campo visual.

Filho de mãe portadora de glaucoma, o professor Luis Sérgio Mattos, 43, sentiu dificuldade em enxergar na adolescência. Apesar de alguns sintomas, só conseguiu identificar o ceratocone aos 18 anos. De lá para cá, ele mantém consultas anuais e não descuida do problema. Apesar de estar no grupo de risco para apresentar o glaucoma, nunca apresentou o problema. “Faço acompanhamento anual e, às vezes, semestral para acompanhar o ceratocone. Mas, como minha mãe teve glaucoma e muitas pessoas da família têm outros problemas de visão, não descuido nunca”.
O ceratocone causa mudanças estruturais na córnea, que passa a ter a forma de um cone. E também pode ser um problema grave se não tratado. O professor chegou a usar óculos com 7,5 graus, mas esse número diminuiu para menos de três graus após cirurgia. “Muita gente nem sabe que uso óculos e a melhora só foi possível porque identificamos a tempo de fazer tratamento adequado”. Hoje Luis Sérgio usa óculos apenas para atividades que exigem mais esforço da visão, como ler e usar o computador.

A moléstia pelo mundo

* A doença atinge hoje 2% dos brasileiros (cerca de 1 milhão de pessoas), chegando a dobrar acima dos 40 anos e a triplicar após os 70

* Na Europa, 9,5 milhões têm a doença, que é responsável por 20% dos casos de cegueira na União Europeia

* Estima-se que mais de 2,2 milhões de americanos têm o glaucoma, mas apenas metade das pessoas sabe que têm a doença

* O glaucoma já provocou a cegueira em 7 milhões de pessoas ao redor do mundo. Atualmente 120 milhões de pessoas sofrem de glaucoma

* Estimativas indicam que o número total de casos suspeitos de glaucoma gire em torno de 60 milhões no mundo inteiro

 

 

Fonte: Tribuna do Planalto