Mais de dois milhões de brasileiros sofrem com problemas de visão. Maior parte não tem acesso a especialista para fazer tratamento adequado.
Ao todo, 2,5 milhões de brasileiros sofrem com problemas de visão porque não conseguem ter acesso a um especialista para fazer o tratamento. A conta é do Conselho Nacional de Oftalmologia, mas a conclusão é que não faltam médicos. Eles estão concentrados nas cidades mais ricas do país, e São Paulo é uma delas. O problema se repete: tem muito oftalmologista, até mais do que é recomendado, mas não nos bairros distantes do centro.
Por causa da dificuldade de acesso a uma consulta básica, milhões de brasileiros sofrem com problemas de visão que poderiam ser facilmente corrigidos. "Ainda bem que a Júlia cresceu e hoje nem se lembra", diz a mãe que a dor de cabeça que ela sentia, aos 5 anos de idade, era forte demais. Marcela levou ela em diversos médicos, até ser aconselhada a procurar um oftalmologista.
Júlia chegou a usar óculos, com uma das lentes muito grossa, e nada da visão melhorar. Hoje elas sabem que o problema não tem cura: o olho direito só enxerga o que está, no máximo, a 30 centímetros de distância. Mais do que isso, fica tudo embaçado.
“Hoje, meu olho esquerdo, para mim é normal. Eu enxergo do mesmo jeito”, conta a menina, que tem 12 anos.
A mãe se acostumou com a rotina de médicos, porque agora ela tem um convênio. “Oftalmologia é uma especialidade muito procurada, é muito demorado. Para conseguir esse exame para ela, de mapeamento de retina, foi quase um ano”, afirma a professora Marcela Lopes.
Júlia vai ter que visitar o oftalmologista pelo menos de seis em seis meses pelo resto da vida. Por sorte, ela mora em São Paulo, onde a relação médico-paciente é de um para oito mil, bem melhor que a recomendada pela Organização Mundial da Saúde, que é de um para 17 mil.
Se ela vivesse na Região Norte, por exemplo, o acompanhamento, provavelmente seria bem mais difícil. Lá tem um oftalmologista para cada 30 mil habitantes. Os números são do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, que divulgou um estudo com uma conclusão boa: não falta médico especialista em olhos. O problema é que eles tão muito mal distribuídos. Metade dos 17 mil oftalmologistas estão em 14 dos mais de cinco mil municípios do Brasil.
Sobra em São Paulo e falta em Santa Inês, no Maranhão: 80 mil habitantes e nenhum oftalmo na rede pública. Nova Serrana, em Minas, também não tem nenhum. O médico vai da cidade vizinha para atender quem precisar, dos 87 mil moradores. Porém não consegue atender à demanda.
“Eu comecei sentir problema na vista. Em posto eu não consegui. Eu procurei o particular”, conta uma mulher.
“É essa catarata, no olho direito e no esquerdo. No esquerdo estou quase cego, não estou enxergando nada”, lamenta um senhor.
O presidente do conselho diz que 2,5 milhões de brasileiros têm problemas de visão porque não têm acesso a um médico que receite os óculos certos. “Isso apresenta um impacto negativo no nosso PIB anual de 0,18%, que equivale a R$ 8,9 bilhões. Com esse dinheiro, o governo conseguiria dar atenção oftalmológica, prescrição de óculos para todos os brasileiros”, afirma Milton Ruiz Alves.
O Ministério da Saúde informa que tem uma política nacional de atenção especializada em oftalmologia e que, nos últimos seis anos, os recursos repassados para as cirurgias de catarata aumentaram 122%. E que tem também um programa de consultas e distribuição de óculos para as crianças em idade escolar.
Fonte: Jornal Floripa