27 de Jul de 2021

Oftalmologistas esclarecem as principais dúvidas sobre a doença ocular e advertem sobre importância de não coçar os olhos, fator de risco mais significativo para o desenvolvimento do ceratocone

junho violeta

Para conscientizar a população sobre prevenção e tratamento, Junho Violeta é a campanha de alerta sobre o ceratocone, uma doença ocular genética que danifica a estrutura da córnea e, de acordo com dados do Ministério da Saúde, causa o comprometimento da visão de cerca de 150 mil brasileiros ao ano. O hábito de coçar os olhos prejudica os olhos. E a falta de informação e acompanhamento médico, pode agravar o problema ainda mais.

“Coçar os olhos com frequência pode causar danos na estrutura da córnea, fazendo com que o ceratocone alcance estágios avançados e prejudique ainda mais a visão. Daí ser o principal alerta da campanha Junho Violeta. Embora seja uma doença genética, fatores comportamentais podem agravá-la. Não é normal sentir coceira nos olhos o tempo todo, então, procure um médico para resolver a causa do problema”, explica o especialista em transplante de córnea Dr. André Ruppert. “Indiretamente, a pandemia e a orientação de não levar as mãos aos olhos para evitar contaminação pelo novo coronavírus têm auxiliado na redução desse hábito, mas é essencial que as pessoas levem essa prática para toda a vida”, comenta.

Para esclarecer e informar sobre a doença, o oftalmologista Dr. Rodrigo T. Santos, especialista em Córnea, Ceratocone, Lente de Contato e Cirurgia Refrativa, pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), respondeu as principais dúvidas sobre a condição ocular.

O que é ceratocone?

Ceratocone é o que chamamos de ectasia da córnea, uma doença que causa um aumento da curvatura da córnea e da irregularidade do astigmatismo, e também há um afinamento, que geram alteração na visão. Com essas alterações, a córnea apresenta uma saliência, em um formato semelhante a um cone. É uma doença que tem mecanismos genéticos associados, mas que depende da associação principal da alergia nos olhos, que pode ser relacionada com a rinite alérgica e também com a alergia na pele (dermatite atópica). Portanto, há a tendência genética do paciente e há o fator externo, que leva à manifestação e progressão da doença.

Quais os principais sintomas? Existe um público mais suscetível à doença?

Os principais sintomas são o embaçamento e a baixa de visão. O perfil é de pacientes jovens: adolescentes e adultos jovens até os 30 anos, com associação de alguma alergia ou coceira nos olhos, por isso o alerta da campanha Junho Violeta é para não coçar os olhos, como uma forma de prevenir o ceratocone. Pessoas com Síndrome de Down também apresentam maior predisposição.

A doença pode estar associada a outros problemas de visão?

Na consulta, o que nos chama atenção, além desse perfil de paciente, é a questão de a pessoa ter um astigmatismo alto que, mesmo corrigido, não ocorre a melhora da visão. O desenvolvimento da doença é gradual e a velocidade da progressão depende muito de cada indivíduo e da associação à alergia. Quando o paciente tem o aparecimento do astigmatismo, continua coçando os olhos e não procura o oftalmologista, a tendência é que a condição piore.

Há prevenção para a doença?

Sim, a melhor prevenção é evitar coçar os olhos, como é o alerta principal da campanha Junho Violeta, e fazer consultas regulares com seu médico oftalmologista. Com a pandemia de Covid-19, percebemos que aumentou o cuidado das pessoas em não coçar os olhos. No consultório, percebemos que, como as pessoas evitam mais levar as mãos aos olhos, houve diminuição de casos de conjuntivite bacteriana e viral, que são contagiosas. Esse cuidado também pode ter ajudado no caso do ceratocone.

A doença tem cura? Quais os tratamentos possíveis? Há avanços recentes?

Infelizmente, o ceratocone não tem cura, mas há vários tratamentos disponíveis. Fazemos a abordagem em dois aspectos. O primeiro é sobre evitar a piora, ou seja, não coçar os olhos e tratar a possível alergia ocular. Também temos que cuidar da rinite alérgica ou dermatite atópica, que são alergias sistêmicas do organismo. Se o paciente apresenta esses problemas, é necessário um enfoque multiprofissional, com o acompanhamento de um alergista, otorrinolaringologista, pediatra ou dermatologista, porque às vezes o tratamento ocular apenas não é tão efetivo. 

Se o oftalmologista perceber pelos exames que o paciente está tendo uma piora das curvaturas, existe um tratamento chamado crosslinking, que é uma cirurgia na qual o especialista faz uma raspagem do epitélio (camada superficial da córnea) e vai pingando uma vitamina chamada riboflavina. Essa vitamina penetra nas fibras de colágeno da córnea, na parte mais interna. Na etapa final da cirurgia, expomos o paciente à luz ultravioleta controlada, o que causa uma reação química de maior entrelaçamento dessas fibras, provocando maiores ligações. Isso dá mais estabilidade e rigidez à córnea, fazendo com que fique mais resistente ao processo de progressão. Contudo, mesmo que o paciente tenha feito o crosslinking, é importante orientá-lo a evitar coçar o olho. Se ele continuar com o processo alérgico intenso e permanecer coçando o olho, o ceratocone pode aumentar.

O segundo aspecto da abordagem do ceratocone são os tratamentos para a melhora da visão, para a reabilitação visual. Eu explico didaticamente ao paciente que o tratamento do ceratocone é como se fosse uma escada: a gente só vai para o nível superior, se aquele que a gente está não for suficiente. Então, o primeiro passo é verificar como está a visão do paciente com ceratocone, é realizar a refração, o exame para determinar o grau dos óculos. Se ele alcançar uma boa visão, o paciente do ceratocone pode usar óculos – às vezes, há um grau mais alto de miopia e ou astigmatismo –, mas se der uma boa visão, é um passo importante. Porém, se a visão não for satisfatória, a opção é realizar os testes de lentes de contato. Nesse caso, para a melhora da visão de uma córnea irregular, há as lentes rígidas fluorcarbonadas e as lentes esclerais. Ambas ajudam a corrigir a óptica do ceratocone e permitem uma visão mais nítida, corrigindo o astigmatismo irregular. Porém, quando o paciente retira a lente, ao final do dia, antes de dormir, o ceratocone continua lá. As lentes são um artifício apenas para a pessoa enxergar melhor. É sempre bom, se ele tiver óculos, usá-los também.

O terceiro degrau dessa escada é o anel intraestromal, que ficou conhecido como anel de Ferrara. São segmentos de material acrílico implantados dentro da córnea que promovem um estiramento dessas fibras e um aplanamento da córnea na parte central, com isso diminuindo os valores de curvatura, mas também ajudando a regularizar o astigmatismo, permitindo uma melhora na visão. Porém, na maioria dos casos, às vezes é necessário continuar usando os óculos de grau ou mesmo continuar uma adaptação de uma lente de contato.

E, por último nessa escala, há o transplante de córnea. Hoje há algumas técnicas mais avançadas, em que se retira apenas uma camada da córnea, a parte anterior, o chamado transplante lamelar anterior. O transplante é a última opção, quando o paciente já tem uma córnea com uma curvatura muito extrema, um afinamento grande ou alguma cicatriz na córnea, ou seja, casos em que não são indicados fazer o anel, ou em que a lente de contato ou os óculos não tenham resolvido satisfatoriamente. A cirurgia de transplante é muito importante, porém corre-se o risco de falência e rejeição. Por isso deve ser usada como último recurso.

O que vem pela frente em termos de tratamento? Como novas tecnologias podem auxiliar no combate à doença?

Nos últimos cinco anos, surgiram inovações em lentes de contato, decorrentes de modelos diferentes, materiais novos e acabamentos diferenciados. Nesse período também houve o lançamento de segmentos de anéis de tamanhos de arcos diferentes, além de segmentos com diferença progressiva de sua espessura. Com isso, temos conseguido melhorar bastante a visão e a qualidade de vida dos pacientes. O surgimento do crosslinking, que também é relativamente recente, possibilitou que muitos pacientes tivessem a progressão da doença controlada e, com isso, evitou-se que eles necessitem do transplante de córnea. Novas tecnologias estão sendo pesquisadas nas formas diferentes de crosslinking, mas ainda aguardamos os estudos para verificar a segurança e a eficácia.

Alguma última orientação para quem tem ceratocone?

Queria alertar que, infelizmente, muitos pacientes com essa condição procuram o Google ou vão em médicos não especialistas e acabam não tendo informações corretas. Acham que vão ficar cegos, que ceratocone não tem tratamento, que terão de fazer transplante, que não vão mais enxergar. Muitos são jovens, os pais ficam preocupados com o futuro profissional e pessoal dos filhos. Em alguns casos, adolescentes entram em depressão, por conta desse fato. Ao procurar um especialista capacitado, ele vai dar a melhor abordagem para o problema e até sugerir, se for o caso, a importância de um apoio psicológico, terapia de crise, para o paciente e para a família. Então, o meu conselho é: faça consulta e exames de rotina com seu médico oftalmologista, se necessário vá a um especialista em córnea e ceratocone, porque há vários tratamentos para ajudar a melhorar a visão e a qualidade de vida, evitando a progressão da doença. E lembrem-se de não coçar os olhos!

Fonte: assessoria de comunicação do Grupo Opty