Para o espetáculo, Alves e Capucho visitaram o Instituto São Rafael, onde entrevistaram vários cegos e estudaram obras do acervo da Biblioteca Pública Luiz de Bessa em Braile
“Essa não é uma obra assistencialista. E não colocamos o cego e nem o negro no papel de coitado”, avisa Oscar Capucho. O recado é dado para que ninguém confunda a proposta do espetáculo de dança “E a Cor a Gente Imagina”, em cartaz até o dia 28 deste mês, no Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte (CCBB- BH). Capucho, que é ator e assina a dramaturgia da montagem, ficou cego aos 9 anos de idade após sofrer deslocamento de retina. Para ele, somente sua atual condição já traz reflexões ao público. Uma delas é a ideia preconcebida de que deficientes visuais não podem dançar. O bailarino e diretor do espetáculo,Victor Alves, desmitifica essa concepção. “Já fizemos, inclusive, apresentações nas quais ninguém percebeu que o Oscar é cego”, diz.
O que diferencia, explica Alves, é a maneira de o corpo se expressar. “Num espaço predominante visual, o cego caminha de forma insegura. Isso influenciana forma de dançar”, afirma.
Metáforas
O fato, porém, não altera a beleza da peça. Com um ar poético e valorizando a sintonia ao invés da sincronia, os dois mandam do palco diversas mensagens.Uma delas diz respeito a um tipo de cegueira social. “Existe uma cegueira alienada por parte de quem enxerga, que é a falta de tato, sensibilidade, amor pelo próximo”, considera o bailarino.
A palavra “cor”, colocada no título da montagem, reforça tal pensamento. “Tem uma cena que chamo o Victor de branco e ele me chama de preto. Não de forma pejorativa, mas, sim, carinhosa. Invertemos os papéis porque a cor não importa. A gente só é o que é e pronto”, frisa Capucho.
O dramaturgo explica que o nome da obra está relacionado ainda a outra questão. Querendo matar a curiosidade da fotógrafa Fernanda Abdo sobre como os cegos “veem” as cores, ele respondeu: “a cor a gente imagina”. Dessa forma, o espetáculo toca também no lugar da imaginação e da memória fotográfica de um deficiente visual.
No entanto, a maior descoberta que o público poderá fazer não é sobre a visão do outro. “Tem uma hora que digo: ‘o que vocês fazem com tudo isso que veem?’. A peça é para pensar”, frisa Capucho.
Troca
Alves e Capucho se conheceram em 2013, após serem convidados pela fotógrafa Fernanda Abdo para participarem de uma performance para a exposição “Texturize-se”. Em seguida, a dupla fez o espetáculo “Sentidos”, que ficou em cartaz em BH em 2015. Para Capucho, a parceria vem lhe conferindo muitas descobertas, como a possibilidade de se deslocar no palco. “Acho que me superei em construção de coreografia”, celebra.
Alves, por sua vez, destaca o aprendizado pessoal proporcionado pelo amigo. “A gente costuma valorizar muito a questão visual e deixa de experimentar muita coisa só porque não tem a ‘cara’ bonita. O excesso de imagem provoca uma cegueira aos que enxergam”, diz. Sucesso no palco, os dois, agora, já pensam nos próximos passos. “Que venham outros trabalhos”, planeja Capucho.
Serviço:
“E a Cor a Gente Imagina” tem sessões até 28 de novembro, às 19h, no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450). Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Informações: (31) 3431-9400
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