27 de Jul de 2021

DATASUS aponta queda de 28% e 40% nos dois principais procedimentos preventivos da doença que deforma a córnea

Ceratocone

Hospitais lotados de pacientes com Covid-19 em todo o País estão dificultando o tratamento de outras doenças. Segundo o oftalmologista Dr. Leôncio Queiroz Neto, a situação é grave para a saúde ocular. Isso porque, dados do DATASUS mostram que durante a pandemia houve redução de todos os tratamentos oftalmológicos oferecidos pelo serviço público de saúde. Entre eles, dois procedimentos que podem evitar a necessidade de transplante de córnea em portadores de ceratocone, alteração que responde por 70% dos transplantes no Brasil.

Daí o alerta do oftalmologista durante a campanha “junho violeta” que visa conscientizar sobre a importância do tratamento precoce e do risco de coçar os olhos. O médico diz que no início do ceratocone a visão pode ser corrigida com óculos e por isso muitos casos só são descobertos em estágio avançado. A principal dica para os pais é observar se a criança tem hábito de coçar os olhos. Se tiver deve passar por uma tomografia da córnea, único exame que verifica todas as alterações em suas duas faces.

A doença

Segundo Queiroz Neto a estimativa é de que hoje cerca de 150 mil brasileiros têm ceratocone que geralmente aparece na infância ou adolescência.  A doença, explica, degenera e afina a córnea, lente externa do olho, que fica com a superfície irregular e se torna mais curva que o normal, até tomar o formato de um cone. Estas alterações resultam em astigmatismo irregular que torna as imagens para perto e longe desfocadas a ponto de interferir na qualidade de vida tanto quanto a degeneração macular, maior causa de perda da visão entre idosos. A causa do ceratocone não está bem estabelecida, mas há evidências de que o hábito de coçar ou esfregar os olhos agrava a deformação da córnea.

DATASUS

Relatório levantado junto ao DATASUS revela que em 2019 os hospitais da rede pública de apenas sete estados brasileiros realizaram 886 cirurgias de crosslinking em todo o País, sendo que 799 aconteceram em São Paulo. No ano passado a mesma cirurgia na rede pública teve queda de 28%. Somou 630 procedimentos distribuídos em 11 estados, com concentração de 490 procedimentos em São Paulo. Queiroz Neto explica que o crosslinking é o único procedimento que pode interromper a evolução do ceratocone. Consiste em reticular as fibras de colágeno da córnea, combinando a aplicação de vitamina B2 (riboflavina) e radiação ultravioleta. "A junção desses dois componentes fortalece em até três vezes a resistência da córnea", pontua o médico.

O relatório do DATASUS também mostra que em 2019 os hospitais da rede pública realizaram em nove estados 1015 implantes de anel intraestromal, sendo 817 em São Paulo. No ano passado esta cirurgia teve queda de 40% em relação ao ano anterior. O Sistema Único de Saúde (SUS) realizou um total de 608 implantes em 13 estados, sendo 490 deles em São Paulo. O oftalmologista explica que a cirurgia é indicada para pessoas que apresentam intolerância ao uso de lentes. A cirurgia é reversível, feita com anestesia tópica através de uma micro incisão por onde e implantado o anel que aplana a córnea e torna o uso da lente mais confortável.

Metanálise

Queiroz Neto afirma que a espessura mínima da córnea para passar pelo crosslinking é de 400 micras. Significa que não pode ser aplicado em córneas muito alteradas. Uma metanálise de estudos europeus sobre o procedimento também mostra que em crianças e adolescentes o ceratocone tem uma evolução mais rápida, mas que a técnica tem melhor resultado entre os mais jovens. O acompanhamento por três anos de 66 pacientes com idade entre nove e 18 anos submetidos ao crosslinking, mostrou que todos tiveram estabilização do ceratocone, melhora da visão e recuperação da espessura central da córnea mais rápida que em adultos. As pessoas com mais de 18 anos também tiveram melhora da visão, mas o risco de complicações como ceratite microbiana é maior neste grupo.

Fonte: assessoria de comunicação do Instituto Penido Burnier