26 de Jun de 2022

Pesquisa publicada no The Lancet mostra que a deficiência visual causa perda de US$ 410,7 bilhões na produtividade mundial

O dia do oftalmologista comemorado no próximo sábado (7) enfrenta o aumento da deficiência visual no mundo todo que foi agravada durante a pandemia de Covid-19 com o abandono de todo tipo de tratamento. Isso explica o resultado de um estudo publicado no The Lancet por um comitê de 74 pesquisadores de 25 países que alerta para a perda de US$ 410,7 bilhões na produtividade mundial decorrentes da deficiência visual. De acordo com o oftalmologista Dr. Leôncio Queiroz Neto, os olhos interferem em toda nossa saúde. "São eles que controlam a quantidade de luz que chega à glândula pineal onde são produzidos os hormônios que equilibram nosso metabolismo. Também permitem 85% de nossa interação com o meio ambiente", afirma. Por isso, salienta, a visão frequentemente é associada nas pesquisas à cognição, bem-estar emocional, psíquico e longevidade.

Para ele o alto prejuízo causado pela deficiência visual está relacionado ao tamanho da população global com grande dificuldade de enxergar e sem nenhuma correção. Isso porque, o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre saúde ocular aponta que 1,1 bilhão das deficiências visuais estão relacionadas à falta de óculos para corrigir erros de refração e presbiopia ou vista cansada, que dificulta a visão de perto após os 40 anos. Uma ação social promovida antes da pandemia pela ONG internacional, OneSight, em parceria com o Instituto Penido Burnier e a prefeitura de Campinas, para distribuir 3 mil óculos a adultos, revela que 18% dos participantes engavetaram a receita de óculos prescrita em consultas realizadas pelo Sistema Único de Saúde por falta de dinheiro.

Cuidados na primeira infância

O médico ressalta que todos nós vamos ter alguma doença ocular no decorrer da vida. Isso explica porque logo após o parto é indicado ao recém-nascido passar pelo teste do olhinho, ou exame do reflexo vermelho, para detectar doenças congênitas que respondem pela maior parte das perdas de visão na infância: retinopatia da prematuridade, catarata, glaucoma e câncer ou retinoblastoma que embora raro, recentemente comoveu o Brasil com o caso de Lua, filha dos jornalistas Leifer e Daiana. "Importante alertar que em muitos bebês os olhos não dão sinais de alteração logo após o nascimento. Lua é uma prova disso", comenta. Por isso, é comum crianças que passaram pelo teste do olhinho na maternidade chegarem ao hospital com doença congênita nos olhos que não foi diagnosticada. Para evitar complicações que podem levar à perda irreparável da visão, a recomendação do médico é repetir o exame a cada três meses até a idade de três anos quando deve ser realizado o primeiro exame oftalmológico.

Na infância

Queiroz Neto afirma que os problemas de visão mais frequentes em crianças são os erros de refração: miopia, hipermetropia e astigmatismo. A dificuldade de enxergar entre crianças é uma importante causa de desatenção na sala de aula e da queda no rendimento escolar. Isso ficou comprovado por uma pesquisa realizada junto aos pais e professores de 36 mil crianças das escolas municipais que receberam consulta oftalmológica e óculos em uma ação social do Instituto Penido Burnier. A pesquisa mostra que após um ano de uso dos óculos, na opinião dos professores 50% dos estudantes tiveram melhora no rendimento escolar. Para os pais, 88% das crianças passaram a ter mais concentração e interesse pelo estudo.

Miopia

O oftalmologista ressalta que de todos os erros de refração a miopia ou dificuldade de enxergar à distância é o que mais cresce, especialmente na infância. Uma evidência disso é o resultado de um levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) com 295 oftalmologistas. Para 70% deles a miopia infantil aumentou durante a pandemia. Uma das causas foi o excesso de celular e computador que causa um espasmo nos músculos ciliares. "Isso ficou comprovado em um estudo que realizei com 360 crianças com idade entre nove e 12 anos que ficavam até seis horas/dia conectadas e apresentaram o dobro de miopia. Outra causa é a falta de exposição ao sol durante o confinamento. Isso porque, estudos mostram que a radiação ultravioleta do sol estimula a produção de dopamina, hormônio do bem-estar que controla o crescimento axial do olho, maior nos míopes", ressalta o médico.

A previsão da OMS é de que o estilo de vida moderno eleve os atuais 2,6 bilhões de casos de miopia no mundo para 5 bilhões em 2050. Desses, a estimativa é de que a miopia acima de 6 graus vai atingir 1 bilhão de pessoas e por isso aumentar o risco para esta parcela de descolamento de retina, catarata, glaucoma e degeneração macular, importantes causas de cegueira relacionadas à alta miopia. A boa notícia é que hoje já estão disponíveis três tipos diferentes de tratamentos para controlar a miopia em crianças. Uma dela é uma lente gelatinosa e de descarte diário que diminui em até 50% o crescimento axial do olho através de dois arcos concêntricos na periferia.

O especialista ressalta que recentemente chegou ao Brasil uma lente para óculos que reduz em até 65% a progressão da miopia se for usada por 12 horas conforme ficou demostrado em dois ensaios clínicos. Possui uma tecnologia que permite à criança enxergar com mais nitidez e reduz em 65% o crescimento axial do olho. Um terceira alternativa de controle da miopia apontada pelo médico é a lente ortoceratológica. Rígida e de uso noturno, elimina a miopia durante o sono fazendo uma pressão sobre a córnea que remodela seu formato. Durante o dia a criança fica livre dos óculos e lentes.

Glaucoma

Queiroz Neto afirma que no final deste mês (26) é comemorado o dia nacional do glaucoma que visa conscientizar a população dos riscos da doença. Maior causa de cegueira irreversível no mundo, geralmente surge após os 40 anos mas a falta de sintomas faz metade nem desconfiar da doença. O oftalmologista afirma que formam grupos de risco pessoas da raça negra, orientais e quem tem casos na família, grupo com sete a oito vezes mais chance de ter a doença

Queiroz Neto explica que o glaucoma lentamente vai degenerando as células do nervo óptico que transmite as imagens ao cérebro. Nove em cada 19 portadores têm glaucoma de ângulo aberto e fazem tratamento com colírios para baixar a pressão intraocular, mas muitos abandonam o tratamento. Em algumas pessoas a cirurgia de catarata pode regular a pressão interna do olho. Recentemente o Food em Drug Administration (FDA) aprovou nos Estados Unidos um dispositivo biodegradável que é implantado no olho para entregar a medicação sem risco de contaminação do colírio e menos irritação na superfície do olho, mas ainda não há previsão de quando vai estar disponível no Brasil.

Catarata

Maior causa de cegueira tratável no mundo, a catarata responde por 49% dos casos de perda da visão no Brasil. Geralmente surge a partir dos 60 anos em decorrência do envelhecimento que leva à perda de transparência do cristalino, lente do olho responsável pela mudança automática de foco para as várias distâncias. Outras causas frequentes da catarata são: uso contínuo de corticoide, fumar, abusar do sal, não proteger os olhos no sol com lentes que filtrem a radiação ultravioleta, sofrer um ferimento no olho, ter alta miopia ou diabetes.

O único tratamento para catarata é a cirurgia que substitui o cristalino opaco pelo implante de uma lente transparente. O problema é que um levantamento realizado por Queiroz Neto no DATASUS mostra que no primeiro ano da pandemia o número de cirurgias caiu 47% e em 2021 ainda ficou 18% abaixo de 2019. Significa que a falta de tratamento reduziu a qualidade de vida de muitas famílias. Isso porque, o estudo publicado no The Lancet mostra que após a cirurgia de catarata o consumo familiar aumentou 80% pela reinclusão ao mercado de trabalho.

A OMS estima que 11,9 milhões pessoas em todo o mundo têm deficiência visual moderada ou grave, além da cegueira causada pelo glaucoma, retinopatia diabética e tracoma que poderiam ter sido evitadas. O custo estimado para prevenir todos estes problemas de visão é de US$ 5,8 bilhões ante US$ 14,3 bilhões adicionais pela falta de prevenção. Por isso, a falta de prioridade da saúde ocular nas políticas públicas da saúde tem reflexos negativos na economia.

 

 

 

Fonte: assessoria de comunicação do Instituto Penido Burnier